Sobre presença, escolhas e o tempo necessário para não se perder no início do ano.

Janeiro costuma carregar uma expectativa silenciosa: a de que tudo precise estar claro, decidido e organizado logo nos primeiros dias do ano. Como se a virada do calendário tivesse o poder de apagar o que ficou pendente e inaugurar, de forma quase automática, um tempo sem erros, dúvidas ou revisões.
Este janeiro foi diferente para mim.
Foi um mês de lucidez e presença. Pela primeira vez, me permiti não começar o ano fazendo planos, definindo metas ou estruturando uma agenda completa. Em vez disso, escolhi parar. Refletir. Amadurecer ideias. Olhar para dentro e escutar com mais cuidado o que, de fato, fazia sentido sustentar a partir daqui.
Não cedi à urgência de ter tudo claro, organizado e definido. E, curiosamente, foi justamente essa escolha que trouxe mais clareza — não imediata, mas verdadeira. Ao chegar ao fim do mês, sinto menos ansiedade e mais discernimento sobre os próximos passos.
Janeiro e a pressa por clareza
Não houve um momento específico de ruptura ou alerta. Não foi uma decisão tomada no limite. Foi, antes, um movimento contínuo de respeito ao tempo. Um compromisso deliberado de descansar, ler, refletir e buscar direção com mais profundidade.
Também recorri à espiritualidade como espaço de orientação. Não como resposta fácil, mas como escuta. Ainda assim, faço questão de dizer: nada disso foi simples ou confortável. Foi um exercício consciente, feito em meio à realidade de um mundo que não desacelera e de pessoas que, assim como eu, precisam e continuarão precisando trabalhar com intensidade.
Quando não correr é uma decisão
Em mim, a cobrança costuma aparecer de forma sutil. Não como dureza explícita, mas como a sensação de atraso. A ideia de que eu deveria estar no mesmo ritmo de outras pessoas. De que, se não acompanho certas agendas, posso perder algo importante.
Neste janeiro, por exemplo, houve convites fora de contexto, solicitações que poderiam facilmente me puxar de volta para o fluxo habitual. Manter o limite do recesso, mesmo com medo de ficar de fora, foi um gesto pequeno e, em outros tempos, impensável.
A cobrança que não se anuncia
O que mais adoece os começos de ciclo, pelo que observo em mim e nas pessoas que acompanho, é a comparação. A expectativa de que janeiro precise funcionar como uma chave mágica: o mês em que tudo se resolve, tudo se esclarece, tudo finalmente começa a dar certo. Como se o erro ficasse no ano anterior e, a partir de agora, só restasse acerto.
Sustentar não é acelerar
Sustentar um começo, para mim, agora tem outro significado. Tem mais a ver com serenidade do que com entusiasmo. Com disciplina consistente, não obrigatória. Com a capacidade de seguir sem violência interna, mesmo quando o entorno pede velocidade.
Por isso, escolhi não prometer, não explicar demais, não correr e não responder a tudo e a todos. Escolhi respeitar o meu tempo e, mais do que isso, me obrigar a desacelerar, inclusive me afastando das redes sociais quando necessário. Não como fuga, mas como cuidado.
Talvez a percepção mais importante deste mês seja simples, mas pouco praticada: o mundo não acaba em dezembro nem nasce de novo em janeiro. A vida não se reinicia a cada virada de calendário. Não precisamos resolver todos os problemas nem ter todas as respostas em um único mês.
O que realmente importa é a capacidade de sustentar escolhas ao longo do tempo. Sustentar decisões quando o entusiasmo passa. Sustentar limites quando o medo aparece. Sustentar um caminho com coerência, mesmo sem garantias. Fechar janeiro, para mim, não é sobre ter tudo pronto.
É sobre seguir com mais presença, clareza e responsabilidade pelo que escolho sustentar daqui para frente.


